Cuiabá/MT, 3 de fevereiro de 2026

De família tradicional cuiabana, designer vence prêmio em Paris com poltrona que valoriza indígenas do Xingu

A designer e artista e empreendedora social Maria Fernanda Paes de Barros, da Yankatu, é a vencedora do Créateurs Design Awards 2026, na categoria Melhor Design de Produto, com a Poltrona Ariranha, obra que homenageia uma das tradições culturais da etnia Mehinaku, do Alto Xingu, no Mato Grosso. Realizado em Paris, na França, o Créateurs Design Awards premia projetos nas áreas de arquitetura, interiores, produto, paisagismo, curadoria, arte digital e jornalismo criativo; e reúne um júri formado por mais de 300 profissionais de 55 países, reconhecendo projetos que se destacam pela excelência formal, inovação, sustentabilidade e impacto cultural. A premiação aconteceu em Paris, em 18 de janeiro.

“Para mim, o Prêmio representa a importância de ter me mantido fiel aos meus valores e ao que eu acredito”, afirma Maria Fernanda. “Ter a confiança do povo Mehinaku para trazer uma máscara de um ritual sagrado para uma peça de design contemporâneo significa que construímos uma relação sólida baseada na verdade, na transparência e no respeito. A obra se transforma em mais uma forma de falar sobre a cultura deles, o que é a essência do meu trabalho desde o início, sempre buscando contar as histórias e falar sobre as culturas com as quais trabalho”, completa.

A poltrona também sintetiza um método que atravessa toda a sua trajetória. Ao longo de mais de uma década, Maria Fernanda vem afirmando o artesanato como estrutura do processo criativo, e não como acabamento ou detalhe decorativo.

“Embora este reconhecimento tenha vindo através da poltrona, eu o entendo como a coroação de uma trajetória construída com consistência, método e escolhas muitas vezes contrárias às expectativas do mercado. O meu modo de trabalhar se pauta pela colaboração, pela horizontalidade e por relações em que o fazer artesanal – e todo o seu ecossistema – ocupa um lugar central na minha autoria e na forma de pensar do projeto”, afirma.

Com assento e encosto estruturados em madeira freijó maciça, a poltrona recebe como uma veste a Máscara da Ariranha, elemento simbólico de forte valor cultural para o povo Mehinaku. A confecção da máscara, neste caso feita pelo artesão Kawakamanu Mehinako na aldeia Kaupüna, é um saber ancestral tradicionalmente guardado pelos homens da etnia, sendo tecida em barbante sobre um estrutura de cipó ou madeira, sempre finalizada com saia de palha com fios de buriti.

De caráter espiritual, a máscara está associada a rituais de cura e proteção, realizados a partir da indicação dos pajés. Ao incorporar esse elemento à peça, a Poltrona Ariranha estabelece um diálogo entre design contemporâneo e saberes tradicionais culturais e artesanais, reforçando uma metodologia que a designer tem replicado em diferentes regiões do Brasil ao longo da última década.

O resultado é a criação de uma linguagem autêntica marcada por uma presença crescente no circuito internacional. Fundadora da Yankatu, criada em 2014, a Maria Fernanda tem desenvolvido colaborações com comunidades artesãs em Minas Gerais, Pará, Bahia, Paraíba, Rio Grande do Norte, São Paulo e no Território Indígena do Xingu, além de experiências fora do país. Seu trabalho já integrou 16 exposições no Brasil e nove mostras internacionais, em cidades como Genebra, Milão, Nova Iorque, Paris, Tel Aviv e Cidade do México.

Do território ao circuito global

Em 2023, foi a única designer brasileira convidada para a Bienal de Design de Tel Aviv, onde apresentou obras desenvolvidas em parceria com artesãos brasileiros. Peças como a Cadeira Cocar, o Armário Oca e a obra Caminho foram destaques na Bienal, realizada no Eretz Israel Museum, que reuniu 18 artistas e designers de diferentes países. A Cadeira Cocar também já esteve em exposições em Nova Iorque, Paris, Bruxelas e Genebra, incluindo a sede da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), da ONU.

No México, durante a Design Week México, Maria Fernanda realizou um intercâmbio com o artesão Sérgio Hernández, com quem desenvolveu a luminária Camino del Alma, a partir da técnica tradicional do papel picado. A experiência ampliou seu repertório de colaborações internacionais e reforçou a dimensão metodológica de seu trabalho.

“Esse projeto me fez perceber com ainda mais clareza que a minha metodologia é aplicável em outros países e contextos, porque ela se baseia no respeito e na escuta. Mesmo em culturas diferentes, eu encontro muitas semelhanças nos processos artesanais, especialmente na relação com o território, com a memória e com o respeito às gerações anteriores”, diz.

Uma de suas ações mais recentes é o projeto Xingu – Reflexos Indígenas no Design Contemporâneo. A iniciativa buscou destacar o trabalho artesanal das mulheres da etnia Mehinaku com a palha de buriti, gerando oficinas de inovação, um documentário, um catálogo virtual e uma exposição que ficou por dois meses no Museu A Casa do Objeto Brasileiro, em São Paulo.

Maria Fernanda também atua na formação de outros profissionais interessados em trabalhar com o artesanato de forma ética e colaborativa. Por meio do curso Metodologia Yankatu: Artesanato para Além das Tendências, ela compartilha processos, reflexões e experiências acumuladas ao longo de sua trajetória, reunindo aulas práticas e teóricas que abordam colaboração, direitos autorais e impacto social no design, além de imersões em territórios artesanais como o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.

A atuação como formadora amplia o alcance de seu método, contribuindo para que outros criadores passem a incorporar o fazer artesanal como parte estrutural de seus processos criativos. “Sempre me interessou pensar naquilo que fica depois de cada projeto. Mais do que criar peças, é sobre criar relações, fortalecer saberes e garantir que essas trocas e tradições continuem acontecendo de forma justa e duradoura através das novas gerações”, completa.

Para a designer, sua premiação no Créateurs Design Awards também confirma a importância do feito à mão na construção de uma identidade própria – não apenas em seu trabalho – mas  para o design brasileiro. “Quando o cenário internacional reconhece esse tipo de trabalho, ele está reconhecendo que o design brasileiro não se constrói apenas a partir de tendências globais – que são importantes – , mas a partir de uma cultura material própria, que tem no artesanato um de seus principais pilares”, finaliza.

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