Além de uma das vozes mais celebradas da literatura brasileira contemporânea, a escritora paulistana Mariana Salomão Carrara, com destaque para duas vitórias no prestigiado Prêmio São Paulo de Literatura em 2023 e 2025, também é defensora pública em São Paulo (SP). Na rotina de trabalho no Judiciário, conversando com um colega defensor que atuou em Mato Grosso, a escritora descobriu a existência de três cidades do interior mato-grossense e pensou que seu novo livro poderia se passar nessa região. Esse foi o ponto de partida para “Cláudia Vera Feliz Natal”, que será lançado em 5 de maio pela Editora Todavia.
Ao Olhar Conceito, Mariana conta que gostou da ideia das comarcas do livro terem sido “frutos do acaso”, assim como a trajetória do narrador de “Cláudia Vera Feliz Natal”, um jovem que, aprovado em concurso público, começa a atuar no interior de Mato Grosso. De acordo com a sinopse, ele precisa prestar contas da lentidão em um caso sensível que acompanha há meses. Aos seus superiores, dirige uma espécie de defesa-autobiografia em que revisita os anos de carreira nas pequenas comarcas de Cláudia, Vera e Feliz Natal.
“Gostei da ideia de que a escolha das comarcas do livro tenha sido fruto do acaso, assim como a trajetória do narrador e de tantos profissionais aprovados em concursos em diversos estados, lotados na cidade que calhou no momento da aprovação. Eu quis descobrir junto com o juiz como seria a vida dali em diante”.
Através do relato do colega defensor que atuou em Mato Grosso, ela entendeu um pouco mais sobre a sensação de viver o deslocamento geográfico, começar uma carreira longe de sua cidade e deixar uma grande metrópole, já que ele era de São Paulo, para fazer parte do sistema de justiça de uma comarca pequena.
“Os atores do judiciário acabam sendo figuras conhecidas pela população, com certa notoriedade e ao mesmo tempo em perene estranhamento alienígena, com suas roupas e vernáculos solenes, e completa falta de vínculos e raízes naquele estado”.
Para Mariana, a escrita do novo livro não seria a mesma sem a experiência de 15 anos como defensora. No entanto, como em suas outras obras, a autora buscou desviar a realidade do narrador e da história para fora de suas próprias experiências. “Minha capacidade de imaginar e desdobrar a realidade inventada talvez fosse menor se eu decidisse trazer a voz de uma defensora”.
No livro, assim que assume seu posto em uma pequena comarca, o juiz descobre que tem uma dificuldade extrema em tomar decisões, enquanto vive em um contexto que precisa decidir sobre todos os temas. “O que traz profunda angústia para ele em todos os detalhes do seu dia-a-dia profissional. Até que surge um caso verdadeiramente impossível de decidir, que envolve ao mesmo tempo a urgência do tempo da infância, e a impossibilidade da certeza sobre a verdade”.
Na defesa que precisa enviar à corregedoria após receber uma representação pela demora para sentenciar o caso, e acaba expondo uma “defesa revoltada”. “Sua relação com a carreira e o processo decisório, dificuldade nas relações pessoais, e tudo que ele considera paradoxalmente injusto no sistema de Justiça. Acho que meu ponto de partida foi imaginar o pavor de decidir, sentenciar o destino dos outros”.

Entre o real e o ficcional: o processo de construção do juiz narrador
Como em seus outros livros, a construção do personagem do jovem juiz que atua em comarcas do interior de Mato Grosso, Mariana conta que mergulhou em um esforço de investigação íntima que revela, durante a escrita, o enredo e os personagens. Em “ Se deus me chamar não vou”, por exemplo, a narradora é uma criança de 11 anos. A escritora paulistana e defensora pública é conhecida por narrativas sensíveis sobre luto e memória, com obras como “A árvore mais sozinha do mundo” e “Não fossem as sílabas do sábado”
Durante a escrita, a autora coletou depoimentos de pessoas que atuaram na burocracia de fóruns de cidades pequenas de todo o Brasil, não apenas do interior de Mato Grosso. A visão de juízes, promotores, procuradores e defensores que passaram por comarcas pequenas ao longo das carreiras foi parte importante da construção do livro.
“A ideia foi partir dessas três cidades [Cláudia, Vera e Feliz Natal], com a peculiaridade de seus nomes, mas para representar algo que vai além de especificidades locais, e abordar uma realidade nacional, existente em interiores de muitos estados brasileiros, e focar na experiência desses agentes da Justiça deslocados de seus universos para lugares distantes de suas casas e com características difíceis de apreender rapidamente na atuação profissional”;
“Um cenário de solidão profunda para esse juiz que, apesar da vontade de conexão, acaba isolado também por alguma empáfia, própria talvez do status e da relação das capitais com as áreas ditas provincianas”, completa.
Além dos depoimentos, a pesquisa envolveu material publicado por tribunais com memórias e relatos de magistrados sobre o começo de suas carreiras, como dificuldades, casos marcantes e perigos. Mariana também realizou uma pesquisa de jurisprudência e analisou notícias de Cláudia, Vera e Feliz Natal para ambientar a atuação dos personagens.
“A exposição da figura do juiz ao assédio político de candidatos, por exemplo, é um cenário que pode ser vivido por juízes de pequenas comarcas em praticamente todo o país, enquanto situações como a dos grileiros e assentados na região de Cláudia e protestos de caminhoneiros em Vera trazem o olhar para realidades mais localizadas regionalmente, mas ainda assim presentes no contexto rural de muitos estados”, diz Mariana para contextualizar que o livro não faz menção a casos ou pessoas reais.
Em alguns momentos, o livro parece misturar situações cotidianas com momentos que beiram o absurdo, Mariana explica que todas as inspirações são de casos corriqueiros ou reais. “Ou ao menos verossímeis dentro da experiência jurídica. Acho que o tom cômico está justamente na normalização do que pode soar absurdo, e, no campo mais pessoal, na dificuldade do narrador em estabelecer conexões reais”.
A autora ainda explora a amizade masculina na nova obra. “O desenvolvimento, ou não, da intimidade entre colegas e a dissintonia do narrador com os próprios sentimentos, mesmo sendo um homem que procura insistentemente compreender a si e aos demais”.

Entre o formal e o absurdo no interior
Ao ambientar a narrativa no universo jurídico, Mariana busca expor não apenas a estrutura técnica do Direito, mas também suas contradições. Para a autora, trata-se de um campo marcado por uma lógica e um vocabulário pouco acessíveis ao público geral, embora determinantes na vida de todos. No livro Cláudia Vera, Feliz Natal, isso aparece tanto no aspecto cômico, ao evidenciar o ridículo de rituais formais distantes da população, quanto no dramático, quando esses mesmos mecanismos falham em oferecer respostas ou soluções.
“Acho que o universo jurídico, tal como a medicina, é composto de lógica, léxico e informações que o leigo não domina, mas sabe que regulam sua vida e são determinantes até para sua sobrevivência. A história retrata justamente o ridículo e cômico desses rituais formais e alheios à população geral, e traz também o drama de quando o Direito e os seus regramentos não dão conta de salvar nada”.
Inserido no interior do país, esse cenário ganha outras camadas: desigualdades sociais, limitações de acesso a políticas públicas, controle social em comunidades pequenas e distorções nas dinâmicas de poder.
“Mas também, e eu diria que principalmente, mostrar a dificuldade do próprio juiz narrador em reconhecer ali a sua nova vida, e enxergar nas pessoas traços específicos que valessem vínculos reais — todos ali são, para ele, genéricos e interagem entre si como amizades infantis de verão em hotéis, geradas somente pela coincidência de serem crianças e estarem no mesmo local nas mesmas férias”.
Apesar da densidade dos temas, Mariana espera que, sobretudo, o leitor se divirta e que o livro seja um momento de prazer “no meio de anos tão difíceis para o planeta e para a humanidade”. “Quero que sinta que deixar nossas ilhas pessoais de conforto e de fato encontrar o outro é fundamental para que se ame uma vida nova, uma amizade, uma cidade, sem que tudo pareça para sempre provisório”.
Depois, a autora espera a sensação de que conflitos não se dividem facilmente entre certo e errado. “O Direito pode desamparar muitos de nós em vários contextos, mas tem em si os mecanismos para evoluir, nas mãos de cada ator da Justiça, e andar de fato junto de nós”.