Cuiabá/MT, 7 de maio de 2026

Queijo produzido em MT com leite de vacas que ouvem música clássica e brincam com bola leva ouro em concurso mundial

No sítio Via Láctea, no assentamento Jonas Pinheiro, em Sorriso (a 420 km de Cuiabá), as vacas da produtora e queijeira, Rita Hachiya, de 42 anos, ouvem música clássica durante a ordenha, além de terem bolas para brincar e escovas para se coçarem nos currais. O resultado das medidas de bem-estar animal pode ser visto diretamente na qualidade do leite, que Rita usa para produzir queijos na propriedade. Dois deles ganharam medalha, de ouro e bronze, no Mundial do Queijo, que aconteceu neste mês em São Paulo (SP), com queijos produzidos em mais de 20 países. 

O ouro ficou com o Véu Azul, uma inovação exclusiva da queijaria de Rita, com massa filada, maturada por 30 dias, cremoso por dentro e com casca florida de mofo azul. O cabacinha produzido no sítio Via Láctea levou a medalha de bronze. O rebanho conta com 12 vacas da raça Jersey e, no final de 2023, a propriedade se tornou 100% produtora de leite A2A2. 

 Ao contrário do leite comum (A1/A2), ele forma menos beta-casomorfina-7 (BCM7) durante a digestão, o que pode facilitar a digestão e reduzir a distensão abdominal, gases e dores em pessoas com sensibilidade à proteína. 

Ao Olhar Conceito, Rita conta que foi a primeira vez que participou do Mundial do Queijo e se surpreendeu com produtores do Uruguai, Índia e França, por exemplo. A queijeira é responsável por toda a produção no sítio Via Láctea e, por isso, vibrou quando foi premiada com as duas medalhas. 

“Estou super feliz com esse reconhecimento, é gratificante porque nos motiva a continuar, a gente sabe que trabalhar com leite e queijo é uma tarefa difícil. Hoje não tenho mão de obra, faço tudo sozinha, então isso me motiva muito a continuar e poder, através da minha história, inspirar outras mulheres a continuar na profissão, buscar melhorar”. 

A queijeira explica que o bem-estar animal vai muito além da nutrição e da qualidade do ambiente. O conforto térmico, por exemplo, chega a ser crucial para os animais em um estado quente como Mato Grosso, reforça Rita. Mas, para além de tudo isso, as vacas da queijeira têm nome, recebem amor, carinho e são chamadas de filhas durante as conversas com a produtora, algo que é parte da relação entre ela e as vacas.  

“Antes de entrar para ordenhar já começam a derramar leite, elas não ficam estressadas, não urinam e evacuam na hora da ordenha, não estão com medo, é tudo muito tranquilo. Costumo colocar música clássica para elas”, conta. 

O leite produzido nessas condições tem cheiro e gosto diferente, diz Rita, que também notou um aumento na produção desde que começou a colocar música clássica durante a ordenha das vacas. No sítio eles também produzem eucalipto entre os piquetes, o que contribui com o conforto térmico para os animais pastarem um pouco a mais durante a ordenha pela manhã. 

“Falo para o meu marido que experimentei tantos queijos diferentes, com formas diferentes de produção, o sabor do nosso é totalmente diferente”. 

História da produção 

Antes de ser produtora de leite e queijeira, Rita trabalhava como agente sanitária na comunidade e investiu uma propriedade. Ainda sem saber o que faria no espaço, conheceu o veterinário Evandro José de Carvalho, que anos depois se tornaria seu marido. Na época, ele tinha algumas vacas e apresentou à Rita uma oportunidade de trabalhar com os animais. Assim, em 2009, ela tinha “quatro vaquinhas”, como se refere carinhosamente, e começou a fazer as primeiras ordenhas. 

“Eu trabalhava fora, tirava leite de manhã, ia trabalhar, voltava e tirava leite de novo. Mas nunca tinha trabalhado com isso, nunca nem tinha visto uma vaca de perto. Comecei a tirar leite, não tinha curral, depois construímos uma casinha, esse leite a gente entregava para o lacticínios. Fiquei assim de 2009 até final de 2014”. 

“Meu marido falou: Rita, se você quiser tornar a propriedade sustentável e viver disso aqui, você vai ter que fazer queijo, porque assim você agrega valor. O laticínio paga muito pouco. Ele me ensinou a fazer queijos. Em 2014 certificamos a propriedade como livre de brucelose e tuberculose, sendo a primeira e única de Mato Grosso até hoje. Todo ano tem que renovar e fazer os exames nos animais para ter o certificado”, completa. 

Queijos produzidos por Rita acumulam medalhas em concursos estaduais, nacionais e, agora, no Mundial do Queijo. (Foto: Arquivo pessoal) 

Rita, então, começou a fazer queijo minas frescal e vender nas ruas de Sorriso. No entanto, algum tempo depois, em uma conversa com Evandro, revelou que se sentia muito tímida para trabalhar com vendas. Com ajuda dele, eles trabalharam para legalizar a produção e ter entrada nos mercados. 

“Em 2015 a gente conseguiu e comecei a colocar meu queijo no mercado local, primeiro foi o minas frescal. Saí do meu trabalho e comecei a trabalhar exclusivamente com as vacas, com a propriedade certificada já agreguei valor no produto”. 

Depois do minas frescal, Rita começou a produzir meia cura e mussarela cabacinha. Foi através de uma receita da avó do marido, que ela criou o primeiro queijo autoral, que ganhou o selo Arte: o queijo Poranga. “Fiz algumas mudanças para conseguir o selo Arte, que permite entregar em todo território brasileiro e para tê-lo precisa ser um produto regional e autoral. O queijo Poranga é um queijo de massa de leite pasteurizado, por fora é de cor amarelada, por dentro é cremoso e suave”. 

O mundo das competições 

Rita participou da primeira competição internacional  em Araxá (MG), apesar de não ter ganhado nenhuma medalha, ela voltou para Sorriso com muitos aprendizados na bagagem. No ano seguinte, ela participou de um concurso estadual em Cuiabá, realizado pelo Sebrae, e conquistou quatro premiações para três queijos e a manteiga produzida no sítio Via Láctea. Ela conta que se motivou a participar de competições quando começou a ver que outros produtores de queijo de Mato Grosso estavam levando os queijos de Mato Grosso para outros estados e ganhando premiações com eles. 

É interessante porque isso abriu meus olhos, sempre fui apaixonada pelas vacas e por tirar leite, mas agora estou encantada pelos queijos. Comecei a descobrir que não tem só minas frescal, mussarela e meia cura. Tem outros queijos que posso criar aqui na propriedade, dar sabor, identidade e agregar valor. 

A queijeira também participou de um concurso nacional em Blumenau (SC), onde conquistou três medalhas: duas de bronze e uma de prata no queijo frescal, cabacinha e doce de leite. No ano passado, o Queijo Poranga ganhou medalha de ouro em um concurso em Cuiabá, enquanto o queijo Azul da Via Láctea ficou com prata e a cabacinha levou bronze. 

“Não tinha ninguém na minha família que trabalhou com leite, nunca. Falo que nasci para trabalhar com leite e fazer queijo. Me encontrei. Não tenho nenhuma formação, só fiz até o ensino médico, hoje falo que sou uma produtora de leite e queijeira”. 

Para Rita, o queijo apresentou um novo universo e, inclusive, um novo amor, já que ela e o marido se conheceram por conta das vacas. “As vacas e o queijo mudaram minha vida, falo que hoje sou uma mulher realizada e feliz, tenho paz no que eu faço. Isso faz uma diferença na vida e na saúde mental. Se todo mundo tivesse oportunidade de fazer o que gosta…”

Rita conta que conversa com as vacas, que ganham carinho e nome próprio. (Foto: Arquivo pessoal) 

Suas preferências de cookies

Usamos cookies para otimizar nosso site e coletar estatísticas de uso.