O cheiro do café moído na hora atravessa a sacada, onde uma bancada de madeira reúne balança, moedores e uma máquina de expresso de visual retrô, e invade os cômodos do apartamento de Thalia Dall Pizzolo e Rodrigo Nardo, em Cuiabá. Juntos há uma década, a empresária e o representante comercial, de 39 e 40 anos, passaram de consumidores dos grãos comuns encontrados já moídos nas prateleiras de mercado ao universo dos cafés especiais, onde cada etapa do preparo exige atenção e escolha. A curiosidade virou hobby para o casal, que entrou no ambiente digital com o perfil “Hobbistas do Café”, no Instagram, onde o engajamento ajudou a aproximá-los de marcas grandes do setor, como a Net Cafés, com quem fecharam parceria recentemente.
Rodrigo conta ao Olhar Conceito que, quando ele e Thalia se conheceram, já tinham em comum a paixão pelo café. No entanto, ele era preparado no coador tradicional de papel, o Melitta, enquanto o expresso vinha das famosas máquinas de cápsulas que extraem a bebida de forma rápida e padronizada, com pouca possibilidade de ajuste.
À medida que a paixão pelo café ganhou espaço na rotina do casal, veio também o interesse em entender os processos por trás de cada preparo. Hoje, as xícaras do dia já não seguem o mesmo caminho de quando se conheceram: entram em cena variáveis como moagem, proporção, tempo de extração e perfil de torra, além de grãos especiais que chegam por meio de parcerias com o perfil no Instagram e podem custar até R$ 90 por 250g.
O vocabulário também mudou, incorporando termos como corpo, acidez e doçura, características importantes para identificar grãos de maior qualidade no universo dos cafés especiais, para descrever o que antes era apenas “forte” ou “fraco”.
“Antes a gente não tinha essa cultura dos cafés especiais em Cuiabá, até chegar o Amado Grão [cafeteria no bairro Popular], não tínhamos uma cafeteria gostosa para sentar e experimentar um método diferente. Começamos a frequentar o Amado Grão, sábado à tarde era lei. Isso há mais ou menos cinco anos. Começamos a tomar gosto e pesquisar mais, porque antes a gente sempre viajava e ia em cafeterias, mas nunca para ver uma torra ou um grão específico”, conta Rodrigo,
Recentemente, Rodrigo participou de um curso de barista no Amado Grão, apesar de já conhecer algumas das técnicas sobre o preparo do café expresso, ele ainda tinha dificuldade em vaporizar leite na cafeteira italiana Gaggia, uma das estrelas do setup, como é chamado o conjunto de equipamentos usados no preparo do café, montado na sacada do apartamento em que mora com a família em Cuiabá.

“Minha esposa ama capuccino e eu não conseguia fazer. Já tinha feito um curso de coado simples para iniciantes também”, explica Rodrigo.
A cafeteira italiana Gaggia também remete a uma das paixões de Thalia: a aviação. Durante três anos, ela trabalhou como comissária de bordo e hoje, quando olha para a máquina de expresso na sacada de casa, lembra do antigo trabalho. “Ela é de botão, bem retrô. Tem tudo a ver com as máquinas de café do avião, é muito parecido. Eu fiquei apaixonada”, conta a empresária, que hoje administra a oficina mecânica criada pelo pai há 40 anos.
A Gaggia foi um dos primeiros equipamentos comprados por Rodrigo durante uma viagem para Chicago (EUA), ele explica que a marca foi criada por Achille Gaggia em 1948, em Milão, e ficou conhecida pela “crema natural” formada no expresso. “Os cafés de cápsula, por exemplo, ficam com uma ‘crema falsa’, porque não vem só da extração do café fresco, moído na hora, como acontece no espresso tradicional”, ressalta.
Outro item do setup de café criado pelo marido também envolve memórias afetivas, já que uma bancada de mecânico foi transformada na base do setup. “Antes era um cantinho só, era só a mesa de escritório. Foi crescendo, crescendo. Quando fizemos o projeto do apartamento, não estava previsto o cantinho do café na sacada, ali ficaria um vaso de planta ou um sofá. Depois as arquitetas vieram aqui, fizemos um café e elas adoraram também. Ficou lindo”, lembra Thalia.
Maquinário também virou hobby
O interesse pelos equipamentos foi crescendo à medida em que Rodrigo mergulhava no universo do café, chegando a ocupar um espaço dentro da rotina do casal. Eles explicam que o maquinário também virou um hobbie. Orgulhoso, o representante comercial mostra alguns dos métodos que comprou, como a AeroPress, semelhante a uma seringa gigante, e uma máquina portátil que permite fazer café expresso em qualquer lugar, principalmente durante as viagens.
No cantinho do café, um coador de cerâmica de uma marca japonesa virou luminária e serve de decoração para os vídeos feitos pelo casal. “Virei ‘hobbista’ dos maquinários, de comprar as coisas… às vezes não preciso, mas compro porque é bonito. Talvez no futuro vou precisar de outra”, brinca Rodrigo.
O impulso ganhou forma principalmente depois de uma viagem a Chicago, quando Rodrigo decidiu investir nos primeiros equipamentos mais robustos, aproveitando que estava fora do Brasil e poderia encontrar itens até pela metade do preço. “Eu falei: ‘cara, acho que vou comprar as coisas lá, mandar entregar no hotel e trazer na mala’”, lembra. A estratégia deu certo e rendeu até excesso de bagagem. “Compramos duas malas de tanta coisa que eu me empolguei de trazer”, afirma.
Hoje, além de usar os itens no preparo diário, Rodrigo acompanha o mercado e compara preços com frequência, inclusive fora do país. “Tem muita coisa no Brasil que é caro”. O interesse também é alimentado por conteúdo online e por uma rede de outros entusiastas como ele e Thalia. “Comecei a seguir um canal no YouTube que fazia muito review de equipamentos. Estou em grupos, aprendo muito com o pessoal. Tem muita coisa que eu não sei”, explica Rodrigo.
“Ainda somos novos nesse hobby, estamos aprendendo”, completa a empresária que se diverte ao mostrar as xícaras colecionadas pelo casal. “A gente tudo envolvendo café, como se fosse souvenir de viagem”.
O perfil no Instagram, criado de forma despretensiosa, rapidamente deixou de ser apenas um registro pessoal e passou a organizar a forma como o casal se relaciona com o café. Entre vídeos de preparo, testes de métodos e unboxings de equipamentos, o conteúdo ganhou alcance dentro de um nicho específico, o dos cafés especiais, onde estética, técnica e experiência caminham juntas.
Com pouco mais de dois mil seguidores, o perfil soma mais de 100 mil visualizações mensais, números considerados relevantes para um segmento nichado. Foi a partir dessa presença digital que surgiram as primeiras conexões com torrefações e marcas do setor, que hoje enviam grãos, equipamentos e firmam parcerias, como no caso da Net Cafés.
Ao mesmo tempo, o Instagram também funciona como espaço de troca: além de produzir conteúdo, eles respondem dúvidas, indicam produtos e acompanham outros entusiastas, ampliando a rede que começou dentro de casa e hoje se estende para diferentes partes do país.
Hobby como pausa e presença
No meio da rotina atravessada pela correria de trabalho, telas e excesso de informação, o momento do café se transformou em uma pausa construída com intenção que serve, inclusive, para fortalecer a conexão entre os dois. “Hoje em dia estamos com uma tela na frente do rosto toda hora, precisamos ter um escape”, reforça Thalia.
O casal brinca que brinca que os amigos e familiares não são chamados para churrascos, mas para cafés da manhã, por exemplo. “Mesmo quando vamos na casa de amigos, levo minha malinha e os equipamentos para preparar o café”, conta o representante comercial.
Mesmo com o perfil nas redes crescendo, a lógica se mantém: o café organiza um tempo em que o foco não está na tela, mas na experiência, ainda que ela, depois, se transforme em conteúdo. O perfil no Instagram foi criado despretensiosamente por Thalia em dezembro do ano passado. A ideia era apenas compartilhar alguns dos momentos do casal preparando os cafés especiais.
Para a empresária, ter um hobby é essencial para focar “menos no resultado e mais no processo”. “Às vezes a gente tenta uma coisa, uma vez dá errado e não quer tentar mais. Mas o hobby é você ficar insistindo ali, por nada, só porque você quer”, afirma.
Thalia reforça que o hobby é importante até mesmo para a filha do casal, que apesar de ter apenas três anos, já vê o momento do café como uma tradição familiar. Em um dos vídeos do Instagram do casal, a pequena aparece preparando a bebida com o pai.
“Ela vem e fala: ‘papai, café cheiroso’. Ela ainda não entende o que é um hobby, mas está vendo nós fazermos algo que amamos. Quando eu era criança, toda sexta-feira era dia de ver a estreia do cinema com meu pai, não importava se o filme era bom ou ruim. Isso fica marcado”.